Revisado em maio de 2026. Texto original publicado em 23 de dezembro de 2007
Gosto da máxima atribuída a Albert Einstein: "Make everything as simple as possible, but not simpler" — em tradução livre, "torne tudo o mais simples possível, mas não seja simplista". A formulação popular é uma condensação; a versão verificada, de uma palestra de 1933, diz que "o objetivo supremo de toda teoria é tornar os elementos básicos irredutíveis tão simples e tão poucos quanto possível, sem ter que abrir mão da representação adequada de um único dado da experiência".
A frase pode ser interpretada considerando que todo problema possui uma complexidade essencial— inerente ao problema — e na medida em que é abordado, fica impregnado de uma complexidade mundana — adicionada por quem o aborda. A distinção é a mesma que Fred Brooks formulou em 1986, em No Silver Bullet, como "essential vs. accidental complexity". A máxima de Einstein nos pede para eliminar a segunda sem amputar a primeira.
A complexidade mundana tem três origens:
1. Desordem — redundâncias, sobreposições, falta de ortogonalidade entre os elementos.
2. Excesso — uso de mais elementos do que os necessários para o problema em questão.
3. Notação inadequada — escolhas pobres de nomes e vocabulário, que obscurecem o que deveriam clarificar.
Isso se aplica a qualquer campo de conhecimento, mas em especial as soluções de TI são fontes inesgotáveis de complexidade mundana — talvez por isso a frase seja tão citada nesse meio. Em programação, o que chamamos de código obscuro é exemplo abundante das três causas. Muitos profissionais se vangloriam da memorização de códigos e vocabulários sem relevância para o problema original e são incapazes de explicar qualquer coisa sem recorrer a eles. Pior: às vezes essa complexidade é deliberadamente alimentada para dificultar a entrada de outros no domínio — fenômeno também comum em direito, economia e parte da academia.
Em TI, alguns antídotos para a primeira causa: padronização, estabelecimento de glossário sem ambiguidades, reorganização periódica de requisitos e código buscando maior ortogonalidade.
A segunda causa é característica da falta de pragmatismo, mas também se alimenta da desordem. Em projetos de software, é comum o engano de imaginar que quanto mais genérica uma solução, melhor. Em processos de desenvolvimento, significa trabalhar com processos e artefatos que não trazem retorno de investimento.
A solução da terceira depende de um certo talento e compromisso em ser didático. Requer nomes adequados para requisitos, módulos, classes, métodos, funções, variáveis, tabelas e campos. Os nomes devem estar alinhados com o glossário, que deve ser o mais intuitivo possível.
O custo da complexidade mundana não é apenas ineficiência. É distorção epistêmica: vocabulário rebuscado pode ocultar ideias ruins, fazendo passar por sofisticação o que é apenas confusão. Onde a complexidade mundana prolifera, o pensamento crítico recua — porque criticar exige primeiro decifrar o que se quer dizer, e a decifração consome a energia que seria gasta em avaliar.
A consciência da existência dessa complexidade mundana, e o empenho em eliminá-la, é mais que uma virtude técnica. É uma disciplina cognitiva que aumenta tanto a capacidade de resolver problemas quanto a de detectar quando alguém está apenas fingindo resolvê-los.
Atualização (2026): Esta distinção entre complexidade essencial e mundana voltou a ocupar meu pensamento em outro contexto. O projeto Return to Consciousness (https://returntoconsciousness.org/) examina a metafísica contemporânea sob essa lente. O materialismo postula que a matéria é fundamental e tenta derivar a consciência dela. Ao fazê-lo, ou nega a experiência (eliminativismo) ou admite emergência, reintroduzindo o mental como categoria adicional, e em ambos os casos o "problema difícil da consciência" persiste como resíduo. O idealismo postula uma única categoria, a consciência, diretamente conhecida, e deriva o resto. À luz da máxima de Einstein, vale considerar a hipótese de que muito da complexidade desse debate seja mundana: gerada não pelo problema, mas pela escolha inicial de partir do que é apenas inferido (a matéria) para chegar ao que é diretamente dado (a experiência).